IPCC/USP - Alexandre Paixão
Blog criado para a disciplina HSM0112 - Introdução ao Pensamento Científico e sua Complexidade (2020.2), da FSP/USP.
quinta-feira, 15 de outubro de 2020
sexta-feira, 25 de setembro de 2020
Crise no ensino: a extinção do DD - IFCH/UNICAMP
Recentemente, dia 1o de setembro de 2020, o Departamento de Demografia do IFCH/UNICAMP foi extinto. O motivo seria a falta de professores: havia apenas oito docentes vinculados ao departamento. Inclusive, haveria um projeto de criação de uma nova graduação em demografia, que seria "população e políticas sociais", seria o primeiro curso de demografia no país.
O fato da extinção me parece muito significativo. Reflexo do sucateamento do Ensino Superior público e do anticientificismo em vigência atualmente, que incide gravemente sobre o campo das Ciências Humanas, o fechamento do DD é mais um ataque ao ensino e pesquisa numa das Universidades de maior prestígio e reconhecimento do país, a Unicamp. Me parece também, prelúdio de tempos tristes, que tendem a se agravar, como já se agrava em outras instituições de ensino superior públicas no país, em especial as Universidades Federais, que sofrem ataque constantes de instâncias de governo federal.
Cabe a nós, alunos, egressos e docentes, resistir para impedir o total colapso das instituições de ensino públicas e gratuitas, além de lutar para que a democratização do ensino (em todos os níveis) torne-se uma realidade.
segunda-feira, 14 de setembro de 2020
O Paradoxo do Corvo em Hempel
Carl Gustav Hempel (1905-1997) foi um filósofo alemão no século XX. Contribuiu grandemente para a Filosofia através do seu Paradoxo do Corvo, que explicarei brevemente.
Hempel utiliza a construção do paradoxo do corvo para refutar Jean Nicod (1893-1924), lógico francês. O enunciado central da análise é "Todos os corvos são pretos". Para Nicod, o enunciado é confirmado pela observação de que todos os corpos são pretos, refutada pela observação de corvos verdes e não afetadas, portanto, em instância neutra, pela observação de maçãs de qualquer cor (utiliza maçã como exemplo, mas pode ser qualquer objeto que não seja o corvo). Hempel a partir de uma construção lógica vai comprovar que a observação da cor da maçã (ou de qualquer objeto) confirma o enunciado dos corvos.
O caminho lógico de Hempel é o seguinte:
1. Todos os corvos são pretos (hipótese inicial). Matematicamente: todos os corvos se situam no conjunto de objetos que são pretos.
2. Se "todos os corvos são pretos", por equivalência lógica dizemos que "Tudo que não é preto não é corvo".
3. "Meu corvo é preto". Proposição pessoal que confirma a natureza do corvo: ser preto (meu corvo é um corvo, logo ele é preto).
4. "A maçã é verde, logo, os corvos são pretos". Embora pareça contra-intuitivo, pois consideramos que só quando tratamos do corvo sabemos sobre o corvo, o enunciado confirma a hipótese inicial, pois, seguindo o caminho lógico, ou seja, ignorando o conteúdo, "Todos os corvos são pretos" é confirmada pela observação da maçã verde, desde que as hipóteses sejam equivalentes, ou seja, tenham a mesma estrutura lógica. Tanto o enunciado sobre o corvo, quanto o sobre a maçã consistem em corroborar asserções universais de casos particulares, por isso são equivalentes.
Assim, a partir da aplicação dos critérios de Nicod, Hempel conclui que a classe de instâncias neutras não possuem membros. O paradoxo do corvo é estudado até hoje, de modo que é extremamente relevante para a filosofia da ciência, por isso me senti motivado a fazer esse estudo.
domingo, 13 de setembro de 2020
Aparência e Realidade. O exemplo da mesa em Russell.
Um dos meus filósofos favoritos, Bertrand Russell discute em seu livro "The Problems of Philosophy" uma das questões mais caras e instigantes da Filosofia: a noção de aparência e realidade. Para trazer essa discussão, irei me basear no exemplo da mesa de Russell, que está contido no primeiro capítulo do livro citado.
Para exemplificar a questão entre aparência e realidade, Russell traz as dificuldades que ocorrem em reconhecer a natureza real da mesa. Podemos dizer que a mesa é marrom, retangular e dura ao toque. Podemos? Bom, se incidirmos uma luz azul sobre a mesa ela já não surgirá como marrom; da mesma forma, dependendo do ângulo observado a mesa não será retangular e parecerá menos dura caso sentemos na mesa, ao invés de a tocarmos com os dedos. Portanto, o que assumimos como a mesa real nada mais é do que uma percepção ordinária das condições mais comuns, condições que não são universais. Assim, surgem duas questões: Existe uma mesa? Se sim, que tipo de objeto é?
Russell chama de dados sensíveis aquilo que conhecemos imediatamente pela sensação e chama de sensação a experiência de tomar consciência dos dados sensíveis. Supondo que a mesa exista, ela é chamada de objeto físico. A coleção de objetos físicos é chamado "matéria". Daí, surgem duas outras questões: Existe algo como a matéria? Se sim, qual é sua natureza?
Colocado essas questões que moveram muitos filósofos desde a origem da Filosofia, nos gregos, Russell encerra o capítulo com uma consideração essencial para toda a história da Filosofia. Encerro meu texto com ela:
"Among these surprising possibilities, doubt suggests that perhaps there is no table at all. Philosophy, if it cannot answer so many questions as we could wish, has at least the power of asking questions which increase the interest of the world, and show the strangeness and wonder lying just below the surface even in the commonest things of daily life."
segunda-feira, 17 de agosto de 2020
A ciência se associa a verdade, mas podemos alcançar verdades? Uma visão cética.
Há muitos anos, nascia na Grécia o filósofo Pirro de Élida (318-272 a.C.), o pensador mais importante da filosófica cética. Embora não tenha deixado escritos, a escola cética foi fundada por discípulos de Pirro e conquistou adeptos até os anos mais recentes. Sexto Empírico era um desses discípulos e foi essencial para que o ceticismo encontrasse importância na Filosofia. A palavra ceticismo vem do grego “sképsis” que significa “exame, investigação”. Ceticismo se opõe ao Dogmatismo, são basicamente as duas correntes filosóficas de maior importância. Dogmatismo consiste na certeza de que existem verdades e que podem ser alcançadas.
Enquanto isso, o senso comum utiliza o termo “cético” para designar alguém que não acredita em nada. O ceticismo filosófico é um pouco diferente: consiste na ideia de que não podemos alcançar verdades absolutas, e que devemos renunciar a qualquer certeza. Mas ao mesmo tempo, segundo Sexto Empírico, sempre se baseando nos ensinamentos pirrônicos, a escola cética busca a verdade constantemente. Para ele, é preciso cuidado ao dizer que não existem verdades absolutas, pois seria o equivalente a um dogmatismo negativo. Além disso, quando alguém diz “não existem verdades absolutas”, ocorre um paradoxo, pois se verdadeiro, o enunciado indica que há uma verdade absoluta, a de que não há verdades absolutas, ao mesmo tempo, o enunciado se torna falso. A felicidade e o bem estar da mente, segundo o cético só é possível através da suspensão do juízo, o que em grego se diz “epoké”. A suspensão do juízo implica em não se perturbar com as questões, sejam elas metafísicas, religiosas ou científicas. Isso traria paz a alma.
Mas como o ceticismo filosófico se relaciona a ciência? Por que trago essas reflexões? Bom, a meu ver, o conhecimento científico é em sua essência dogmático, assim como a maioria dos sistemas filosóficos. Busca-se uma solução para as questões da humanidade que seja única e universal, especialmente em nossas crenças ocidentais, crenças pautadas em sua maior parte pelo cristianismo e pela crença em Deus.
Entretanto, pensando como Pirro, me parece interessante assumir a suspensão do juízo, evitando a perturbação da mente. Evitar a pertubação da mente não implica apatia em relações às questões da humanidade, implica principalmente, promover a busca constante da verdade, pois ela pode nos motivar a construir o edifício da ciência, em bases mais sólidas. Assumir a nossa incapacidade de alcançar verdades absolutas, mas mantendo sua busca, nos possibilita um questionamento constante, que é muito importante ao adquirir e compartilhar conhecimento.
Para onde leva a busca da verdade científica? Deixo essa questão em aberto para reflexão.



